Decisões do TJSP Afastam a Taxa SELIC em Empréstimos do PRONAMPE: O Que Isso Significa para as Empresas?

Decisões do TJSP Afastam a Taxa SELIC em Empréstimos do PRONAMPE: O Que Isso Significa para as Empresas?

O PRONAMPE realmente pode cobrar SELIC irrestritamente?

O Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (PRONAMPE) foi criado com uma finalidade muito clara: garantir crédito acessível, previsível e sustentável para pequenos empresários, especialmente em momentos de crise econômica.

No entanto, nos últimos anos, inúmeras empresas passaram a enfrentar um problema recorrente: a elevação expressiva do valor das parcelas e do saldo devedor dos contratos do PRONAMPE, em razão da aplicação da taxa SELIC em patamares elevados, muitas vezes cumulada com outros encargos.

Diante desse cenário, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) passou a analisar, com maior rigor, a legalidade da cobrança da SELIC nesses contratos, especialmente quando ela resulta em onerosidade excessiva, desequilíbrio contratual ou desvio da finalidade do programa.

O resultado tem sido uma série de decisões relevantes afastando a aplicação da SELIC, limitando juros ou determinando a revisão contratual, o que abre um importante precedente para empresas que contrataram PRONAMPE e hoje enfrentam dificuldades financeiras.

Sumário

  • Por que identificar corretamente o settlor é essencial no planejamento internacional
  • O que é settlor ou instituidor no contexto jurídico internacional
  • Diferença entre settlor formal e settlor econômico
  • Por que a simples assinatura de documentos não define o settlor
  • Critérios usados para identificar o verdadeiro instituidor
  • Origem dos recursos e a caracterização do settlor
  • Quem decide a criação da estrutura e seu impacto jurídico
  • Controle direto ou indireto como fator determinante
  • Benefício econômico e vínculo com o patrimônio
  • Quando holdings ou offshores podem ser consideradas instituidoras
  • Riscos da interposição artificial de empresas
  • Consequências fiscais de ser considerado settlor
  • Impactos sucessórios e hereditários da identificação do instituidor
  • Como reduzir riscos na definição do settlor em estruturas complexas
  • Importância da análise jurídica, fiscal e sucessória integrada
  • Exemplo prático de identificação do settlor em estrutura internacional
  • Conclusão

1. O Que é o PRONAMPE e Qual a Sua Finalidade Legal

O PRONAMPE foi instituído pela Lei nº 13.999/2020, posteriormente alterada por outras normas, com o objetivo de:

  • facilitar o acesso ao crédito para microempresas (ME) e empresas de pequeno porte (EPP);
  • preservar empregos;
  • garantir capital de giro em condições especiais;
  • oferecer taxas de juros reduzidas e previsíveis;
  • evitar a quebra em massa de pequenos negócios.

Desde sua criação, o programa sempre teve como premissa condições mais favoráveis do que aquelas praticadas no mercado comum, justamente por contar com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO) e apoio estatal.

2. Como a Taxa SELIC Passou a Ser Aplicada nos Contratos do PRONAMPE

Em diversos contratos, os bancos passaram a adotar como critério de remuneração:

  • taxa SELIC;
  • acrescida de spread bancário;
  • acrescida, em alguns casos, de outros encargos financeiros.

Embora a legislação tenha autorizado a utilização da SELIC como parâmetro máximo, o problema surgiu quando:

  • a SELIC passou a sofrer elevações significativas;
  • os contratos não previram limites claros;
  • houve ausência de transparência na formação da taxa final;
  • o custo do crédito se distanciou da finalidade social do programa.

Esse cenário levou empresas a questionarem judicialmente se a cobrança da SELIC, da forma como aplicada, seria legítima.

3. O Papel do Judiciário na Revisão dos Contratos do PRONAMPE

O Poder Judiciário, especialmente o TJSP, tem sido chamado a decidir sobre:

  • abusividade da taxa aplicada;
  • desequilíbrio contratual superveniente;
  • aplicação do Código de Defesa do Consumidor (CDC);
  • revisão contratual por onerosidade excessiva;
  • violação da função social do contrato.

As decisões demonstram uma tendência clara: o contrato do PRONAMPE não pode ser tratado como um empréstimo bancário comum.

4. Entendimento do TJSP: a SELIC Não Pode Ser Aplicada de Forma Automática e Irrestrita

O Tribunal de Justiça de São Paulo tem firmado entendimento no sentido de que:

A simples previsão da SELIC não autoriza sua aplicação irrestrita, especialmente quando isso gera desequilíbrio contratual e frustra a finalidade do PRONAMPE.

Em diversos julgados, o TJSP reconheceu que:

  • a SELIC é uma taxa de política monetária, não um índice contratual comum;
  • sua variação abrupta pode tornar o contrato excessivamente oneroso;
  • o pequeno empresário se encontra em posição de vulnerabilidade;
  • o programa possui natureza social e emergencial.

5. Fundamentos Jurídicos Utilizados Pelo TJSP Para Afastar a SELIC

As decisões do TJSP se apoiam em diversos fundamentos jurídicos sólidos, entre eles:

5.1. Função social do contrato

O contrato deve atender não apenas ao interesse econômico das partes, mas também à sua finalidade social, especialmente quando envolve política pública.

No caso do PRONAMPE, a finalidade é clara: socorrer empresas, não agravá-las financeiramente.

5.2. Onerosidade excessiva superveniente

O TJSP tem reconhecido que:

  • a elevação abrupta da SELIC;
  • somada à crise econômica;
  • e à queda de faturamento das empresas.

Configura onerosidade excessiva, autorizando a revisão do contrato.

5.3. Aplicação do Código de Defesa do Consumidor

Embora haja discussão, o TJSP tem aplicado o CDC em favor das micro e pequenas empresas, reconhecendo sua hipossuficiência técnica e econômica frente às instituições financeiras.

Isso permite:

5.4. Boa-fé objetiva e dever de equilíbrio

Os julgados ressaltam que os bancos devem agir conforme a boa-fé objetiva, evitando práticas que:

  • surpreendam o contratante;
  • tornem o contrato imprevisível;
  • frustrem expectativas legítimas.

6. Casos em Que o TJSP Afastou Expressamente a SELIC

Em decisões recentes, o TJSP determinou, por exemplo:

  • substituição da SELIC por taxa fixa mais compatível;
  • limitação dos juros ao patamar original do contrato;
  • afastamento da capitalização decorrente da SELIC;
  • recálculo das parcelas;
  • suspensão de cobranças excessivas.

Em muitos casos, a Justiça reconheceu que a aplicação da SELIC descaracterizou o caráter incentivado do PRONAMPE.

7. A diferença Entre Usar a SELIC Como Teto e Como Indexador Automático

Um ponto crucial destacado pelo TJSP é a distinção entre:

  • SELIC como limite máximo legal;
  • SELIC como indexador automático e variável.

O Tribunal tem entendido que:

  • a lei não autorizou a aplicação da SELIC sem critérios;
  • o banco não pode repassar integralmente oscilações extremas;
  • a taxa deve respeitar a finalidade do programa.

8. PRONAMPE Não é Contrato Bancário Comum

As decisões reforçam que o PRONAMPE:

  • não se confunde com empréstimos comerciais tradicionais;
  • possui garantia estatal;
  • envolve política pública de fomento;
  • exige interpretação mais protetiva ao tomador.

Isso justifica um controle judicial mais rigoroso sobre juros e encargos.

9. Impactos Práticos Das Decisões do TJSP Para as Empresas

Essas decisões geram efeitos extremamente relevantes, como:

  • redução do valor das parcelas;
  • recálculo do saldo devedor;
  • suspensão de cobranças abusivas;
  • possibilidade de renegociação judicial;
  • prevenção de inadimplência e execuções;
  • preservação da atividade empresarial.

Empresas que estavam à beira da inadimplência conseguiram reorganizar suas finanças a partir dessas decisões.

10. É Possível Pedir Revisão do Contrato do PRONAMPE?

Sim. A jurisprudência do TJSP demonstra que é plenamente possível:

  • ingressar com ação revisional;
  • discutir a legalidade da SELIC aplicada;
  • pedir tutela de urgência para reduzir parcelas;
  • impedir negativação ou execução;
  • buscar recálculo do contrato.

Cada caso deve ser analisado individualmente, com base no contrato e na evolução da taxa aplicada.

11. A Importância da Prova Técnica e Contábil

O TJSP valoriza fortemente:

  • planilhas comparativas;
  • demonstração do aumento excessivo do custo;
  • impacto da SELIC nas parcelas;
  • laudos contábeis;
  • histórico do faturamento da empresa.

Esses elementos são decisivos para o êxito da ação.

12. A Posição Dos Bancos e Como o TJSP Tem Enfrentado os Argumentos

Os bancos geralmente alegam:

  • legalidade da SELIC;
  • autonomia da vontade;
  • risco do crédito;
  • previsão contratual expressa.

O TJSP, contudo, tem afastado esses argumentos quando:

  • há desequilíbrio evidente;
  • o contrato se distancia da finalidade do PRONAMPE;
  • o risco foi mitigado por garantia estatal;
  • a empresa demonstra vulnerabilidade real.

13. PRONAMPE, Crise Econômica e Revisão Contratual

O Tribunal reconhece que o contexto econômico importa.

Fatores como:

  • pandemia;
  • inflação;
  • juros elevados;
  • retração do consumo;

reforçam a necessidade de interpretação mais equilibrada dos contratos.

14. Existe Risco de Perder a Ação Contra o Banco?

Como em qualquer demanda judicial, há riscos.

Contudo, a tendência jurisprudencial do TJSP é favorável quando:

  • o contrato apresenta SELIC excessiva;
  • há impacto financeiro comprovado;
  • a empresa demonstra boa-fé;
  • o pedido é bem fundamentado.

15. Conclusão

As decisões do Tribunal de Justiça de São Paulo que afastam ou limitam a aplicação da SELIC nos contratos do PRONAMPE representam:

  • uma reafirmação da função social do crédito;
  • proteção às micro e pequenas empresas;
  • combate à onerosidade excessiva;
  • equilíbrio nas relações bancárias;
  • fortalecimento da segurança jurídica.

Empresas que contrataram PRONAMPE e hoje enfrentam dificuldades não devem aceitar passivamente cobranças abusivas.

O escritório Kelton Aguiar Advogados Associados atua de forma especializada em:

  • revisão de contratos bancários;
  • ações envolvendo PRONAMPE;
  • afastamento da taxa SELIC abusiva;
  • defesa de empresas contra bancos;
  • negociação e reestruturação de dívidas;
  • proteção da atividade empresarial.

Se sua empresa possui contrato do PRONAMPE com parcelas elevadas ou saldo impagável, procure orientação jurídica especializada e avalie a possibilidade de revisão judicial.

Kelton Aguiar

OAB/SC 27.135 OAB/SP 386.554

O Dr. Kelton Aguiar é formado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, seção Santa Catarina sob o n.° 27.135. Ex-conciliador do juizado especial cível do Foro Distrital Norte da Ilha. Ex-membro da comissão de direito do Consumidor da OAB/SC (Ano 2012).

Especialista em direito tributário pelo IBET – Instituto Brasileiro de Estudos Tributários (Sucursal Santa Catarina), sob a presidência do Dr. Paulo de Barros Cavalho.

Áreas de Atuação: Contencioso e Consultivo Civil e Tributário.

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